O papel do torcedor

Torcida Colorada (Alexandre Lops)

Em entrevista ao programa Rogério Amaral Entre Amigos, o jogador do Sport Club Internacional Paulo César Tinga afirmou que o torcedor não tem consciência do real valor do seu apoio. Segundo o volante, o posicionamento da torcida pode alterar o comportamento dos profissionais em campo. Para conhecer o outro lado da história, fui até o Portão 7 do Estádio Beira-Rio conversar com Hierro Martins, líder da torcida colorada Guarda Popular.

Eu – O que tu respondes a essa colocação do Tinga?

Hierro – A gente (da Guarda Popular) tem um propósito que é apoiar o time. A gente pode até protestar contra algumas coisas que a gente não está achando correto, algum comportamento de um jogador, mas nunca vai ser com vaia. É através de cantos, a gente vai entoar cantos que sejam um pouco mais fortes, que tenham alguma palavra de protesto. A gente já fez isso! Já teve situação de protestar em forma de cantos. Mas vaia a gente acha que é uma coisa muito desrespeitosa com o trabalho do profissional, ninguém merece ser vaiado por mais errado que faça, erre o passe, chute uma bola muito longe do gol, ele não queria isso, então, não merece vaia. Ninguém merece vaia, no ramo que for, não é só no futebol. Então, sempre foi essa a ideologia, não vamos nos juntar pra ficar desrespeitando o profissional que veste a camisa do Inter. Se for pra desrespeitar, então, vai cada um por conta própria.

Eu – Essa colocação do Tinga acredito que não tenha sido somente em questão de vaias, mas em referência aos torcedores que se posicionam contra os jogadores que não passam por bons momentos. O apoio ou o repúdio tem muito poder, pode ser mais um jogador em campo?

Hierro – O torcedor é muito passional. Ele é muito do momento.

Se tu lutas, tu conquistas

A gente tem o exemplo do próprio Gabiru (jogador que fez o gol do título mundial do clube, em 2006). Ninguém nunca gostou do Gabiru, mas ele nunca foi desrespeitado. Botou a camisa do time que a gente torce e a gente vai confiar nele, pode ser o pior jogador do mundo, mas se vestir a camisa do Inter, a gente vai acreditar nele. Obvio que depois que acabar o jogo, a gente vai sair na rua e vai falar: bah, que perna de pau, que ruim, como é que joga no Inter. Sempre existe esse tipo de crítica, mas aqui, no momento do jogo, não acontece isso. Tu quer ver o teu time ganhar, não interessa quem está jogando.

Eu – E qual que tu acha que é o verdadeiro papel do torcedor? Desde aquele que está no Camarote àquele que está na Popular.

Hierro – Eu vou te dar um exemplo. A gente foi pro jogo lá de São Paulo, da semi-final (da Libertadores 2010), de ônibus. E antes da gente sair daqui eu sempre procuro conversar com o pessoal que está no ônibus. Tu não revista as mochilas das pessoas, então não sabe o que elas estão levando. Então, eu conversei com todos e disse: Nós estamos saindo daqui porque o nosso propósito é um, nós temos uma missão. Nós temos que ir lá assistir o jogo do Inter, torcer. Tomara que o Inter ganhe e a gente volte. Essa é a nossa missão. De resto a gente não tem mais nada pra fazer. Tem torcedor que acha que tem que ir pro jogo de futebol pronto pra qualquer coisa. Não é pronto pra qualquer coisa, tem que ir pronto pra torcer pro teu time. Não tem que ir pronto pra brigar com a torcida adversária, nem com o torcedor do teu lado. Não é pra xingar o treinador. A missão é uma só: é ver o time jogar.

Eu – Pensando por outro lado, tu não acha que muitos torcedores são egoístas?

Hierro – Isso é cultura. Nós aqui da Popular tentamos mudar isso porque nós ficamos sempre cantando pra apoiar. Porque se os jogadores ouvirem o barulho dos hinos aqui de trás, alguma coisa a mais eles vão tentar. Mas isso é cultura. Se tu for na América do Sul toda, as pessoas com 40, 50 anos, todas torcendo. Aqui no Brasil, essa coisa está virada pra moleque. Aqueles moleques que ficam atrás do gol lá, eles conseguem cantar. Vai depender. A gente precisa de cinco, dez anos para continuar implantando essa cultura. Nós somos novos, temos cinco anos de torcida e já conseguimos movimentar sem parar todo esse setor (Arquibancada Inferior do Estádio Beira Rio) e, em alguns momentos, todo o estádio. Se tu for ver um jogo pela América do Sul, em qualquer outro estádio, tu vai ver que eles estão o tempo todo e não tem idade. Aqui ainda tem muito preconceito. Torcida é coisa de moleque.

Eu – E como é a relação com os jogadores?

Hierro – A gente está passando por um momento com um time que tem muita sintonia com a torcida. Tem jogadores que realmente estão vestindo a camiseta, eles são colorados. Uma vez nós colocamos uma faixa dizendo Esses mercenários não merecem essa camisa e no outro dia o D’Alessandro parou o carro no pátio e veio tirar satisfação de nós: O que se passa?. Dizendo que ficou magoado, mas que entende a torcida e estava chateado. Eles sabem o que está acontecendo, eles prestam atenção e se em algum momento a gente não estiver junto, eles vão saber. Isso é muito importante, dá força pra gente fazer muito mais.

"A gente tem uma missão: é apoiar o time."

Um comentário em “O papel do torcedor

  1. gostei muito das declarações do Hierro, respondeu tudo sobre o verdadeira ideologia da Barra Brava do SC Internacional. Parabéns CAPO!

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