PERFIL – A reviravolta da mulher

Profissão, dinheiro, sucesso. Mãe, pai, marido, filhas e amante. É a vida que basta para uma mulher dos anos 60! Mas Laurence Mortier Langlois não podia se encaixar nesse estereótipo. Não sendo uma criação de Simone de Beauvoir.
Laurence é publicitária, contratada pela Publinf para criar slogans. Trabalha com a segurança, a felicidade e com um pouco de poesia. Tudo o que ela toca se transforma em imagem. Essas belas imagens convencem os clientes e o público, mas não a si mesma. Na verdade, ela sempre foi uma projeção: a mãe a educou seguindo padrões fora da realidade em que viviam. Menina impecável, adolescente perfeita, moça excelente. E é exatamente isso que a perturba.
A parisiense é mãe de Catherine e Louise, esposa de Jean-Charles e amante de Lucien. Pela mãe, sente náuseas. Pelo pai, admiração. É dele que mais gosta no mundo! Ama suas filhas e preza pela educação, mas debate com o esposo sobre os rumos da vida das pequenas.
- Não quero que Catherine herde sua boa consciência.
Jean Charles bate na mesa; nunca suportou ser contrariado.
- É você que a perturba com seus escrúpulos, a sua pieguice.
- Eu? Pieguice?
Está sinceramente admirada. Já teve sim; mas Dominique (a mãe) e depois Jean Charles a sufocaram. Mona (colega de trabalho) reclama da sua indeferença, e Lucien da sua falta de coração.
Fisicamente, parece bem. Sorriso bonito, segundo o esposo. De baixo do olhar do amante, se sente preciosa: ele diz que Laurence tem joelhos bonitos. Se olha no espelho e nota uma linda mulher, deliciosamente alegre, um pouco caprichosa e misteriosa. Também é eficiente, leal e límpida. Usa echarpes, viaja de jatinho. Não bebe, mas acende seus cigarros com criquetes. Lucien queria dar-lhe um isqueiro de ouro, mas como explicar a Jean Charles?
As perguntas que rodeiam a cabeça, também embrulham o estômago. A mãe é abandonada pelo segundo marido, que se casa com uma jovem de 20 anos. Nem o sofrer de Dominique a humaniza. A derrocada traz questões preocupantes. Porque Jean Charles? Porque Lucien? Porque eu?.
As respostas seriam longas demais. Como as palavras que poderia dizer para explicar porquê não come mais e porquê nada lhe para no estômago.
E as palavras seriam logo grandes demais. Se ela falasse: me preocupo com a mamae, Catherine me cria problemas, Jean Charles esta de pessimo humor, tenho uma ligacao que me pesa, poderia se pensar que na cabeca dela ha uma massa compacta de preocupacoes que a absorvem toda. Na verdade, aquilo esta sem estar, esta na cor do dia. Pensa nisso o tempo todo e nao pensa nunca.
Pensamentos, reflexões, conclusões. Laurence sempre foi guiada: no casamento, na profissão, com Lucien. Com elas, as coisas só aconteciam. Aconteciam! A crise com a filha, que não entende como as pessoas podem ser infelizes, obriga a negação. A rejeição ao estereótipo.
Rompe com o amante, inspira a mãe, volta a comer. Retoma a leitura dos jornais. Conversa com a filha, suspende o psiquiatra. E explode!
Sem ela querer, sua voz se eleva; ela fala, ela fala, sem saber exatamente o que está dizendo, pouco importa, o importante é gritar mais forte que Jean Charles e todos os outros, reduzi-los ao silêncio. Seu coração bate muito rápido, seus olhos queimam:
- Tomei decisões, e não cederei.

(Perfil da personagem Laurence, da obra BELAS IMAGENS, de Simone de Beauvoir.)

Por thaislongaray Postado em Opinião

Distorções midiáticas

A internet é um meio de comunicação muito eficiente. Pena que nem sempre essa eficiência é utilizada de forma positiva. Pegue-se o exemplo do ator Lázaro Ramos. O caso dele não envolve somente a rede, mas ela está inclusa no processo.

O baiano é casado e muito bem casado com a também atriz, Taís Araújo. O problema é que alguns veículos, eletrônicos e impressos, publicaram coisas que não são verdades, segundo ele, sobre o relacionamento e a (in)fidelidade da esposa.

Com a falta do emprego do direito de resposta, duas fortes repercussões surgiram: Carolina Dieckmann foi a festa de aniversário de Lázaro, tirou diversas fotos da apaixonada dupla e postou em seu blog, junto com um protesto sobre a falta de privacidade que os “globais” sofrem; depois o próprio ator procurou a colunista do Jornal O Globo, Patrícia Kogut e publicou uma carta no site e na edição impressa do veículo: “Sinto-me constrangido com o fato de escrever um artigo como este, mas tenho que fazê-lo”, escreve.

Para mim, o natural seria respeitarmos o espaço alheio. Mas, diante dos tempos em que vivemos, tenho que fazê-lo, pois considero isso um desrespeito com todos os envolvidos em situações como estas, incluindo minha esposa, eu, os leitores e a própria imprensa. Então, essa é uma reflexão que se faz necessária.

Sei que a base do jornalismo não é essa. Tenho consciência de que, no segmento do jornalismo sobre artistas, há quem exerça sua profissão de uma forma muito equilibrada e digna. Mas, esses casos de superficialidade jornalística são uma erva daninha e precisam ser questionados para que injustiças como essas deixem de ser cometidas. O fato de ser uma pessoa pública não é razão para que a imprensa, ou qualquer outra pessoa, no afã de obter audiência, ou o que for, noticie, de forma inconseqüente, fatos mentirosos a respeito da intimidade de quem quer que seja.

Escrevo este artigo na certeza de que é possível manter um bom relacionamento com a imprensa, e esperando que os diálogos travados nela sejam sobre assuntos de real importância para o público. O universo da comunicação precisa de conteúdos relevantes e não de bobagens como estas. Fico agora na expectativa de que os veículos que noticiaram essas mentiras verifiquem com suas fontes as informações e, após perceberem a inconseqüência com que agiram, tomem alguma atitude digna. E fim. (Lázaro Ramos, 2007, http://oglobo.globo.com/blogs/patricia/)

No artigo de Lázaro percebe-se claramente que a fofoca foi o princípio causador de todo esse transtorno. José Ângelo Gaiarsa disse certa vez que “é preciso muita imaginação para fazer fofoca”. Mas o que não se diz com clareza é que a fofoca nada mais é do que a imaginação do fofoqueiro. Entende-se que quem tem pouca criatividade imaginativa, fará comentários do mesmo nível. Na mesma oportunidade, Gaiarsa explica que fofoca nada mais é do que a informação tendenciosa sobre um terceiro ausente e que essa manifestação pode ser feita de formas distintas, mas complementares: a fala e o acompanhamento expressivo. “Ao auditório interior de vozes que comentam tudo o que acontece conosco e com os outros, se soma uma platéia que observa tudo o que fazemos”, completa o autor.

Os grandes personagens do cinema e TV, do esporte e da política, da ciência e do crime, se fazem verdadeiramente arquétipos. São tenazmente seguidos por uma chusma de repórteres e cada uma de suas ações é fotografada, publicada ou comentada por todo mundo. Cada um desses personagens se faz propriedade de um número incalculável de pessoas que, ao tomar posição contra ou a favor, ao falar, admirar, execrar, invejar, mas sobre tudo ao imitar cada um desses personagens ao mesmo tempo que se integra a eles, integra-se a si. E exatamente assim que se integra um arquétipo. Quer isso dizer que todo personagem de jornal ou TV se dá a seu público, é comido pela multidão, como Cristo na Comunhão. (José Ângelo Gaiarsa, 1978, página 93)

Entende-se essa citação como ‘quem tá na chuva é pra se molhar’.

Na situação, a falta de interatividade fez com que Dieckmann tomasse parte no assunto e promovesse o contato dos atores com o grande público, através da internet. As fotos mostram claramente que o casal estava embriagado de paixão e sem preocupação com os comentários que circulavam. A atriz usou do espaço cedido pela emissora em que o trio atua e deixou o recado: “Taís manda avisar que o casamento vai bem, viu gente? Aliás, com um beijo desses, nem dá pra questionar…”

“A tela do computador surge como um vidro opaco através do qual as pessoas podem trocar idéias e opiniões sem serem vistas. Sem a necessidade da presença física, é mais fácil se posicionar e dar adeus à autocensura”, disse Denise Schittine anos antes do fato se consumar. Nesse caso, a identidade foi exposta de forma precisa, mas ainda está clara a falta da premissa da Constituição Federal e também da lei da boa convivência: o tal do DIREITO DE RESPOSTA.

Embora os órgãos de comunicação tenham inúmeras proteções legais, a liberdade de imprensa possui limites em seu exercício. Uma análise do artigo 220 da Constituição Federal, mostrará que, ao lado das expressões ‘a manifestação de pensamento…a expressão… não sofrerão qualquer restrição’ e ‘nenhuma lei conterá… embaraço’, temos os considerandos ‘observado o disposto nesta Constituição” e ‘observado o disposto no artigo 5º,V’.

O artigo 5º diz claramente: ‘É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo’. Não deve, portanto, a parte ré levantar questão já pacificada, a exemplo de eventual ofensa à liberdade de expressão, embora não deva a parte autora usar o direito de resposta como panacéia, pois o dispositivo fala em ‘proporcional ao agravo’ e a Lei de Imprensa, embora mais antiga, esclarece melhor ainda a terminologia.

Não há, também, nenhuma vinculação do direito de resposta com alguma intenção específica do ofensor: não é a intenção que conta, e, sim, o resultado de sua ação.

Ainda que inexistente o animus injuriandi, é princípio ético oferecer, a quem tenha sido afetado, o direito de resposta, a ocorrer, no mesmo horário e dia correspondente àquele em que foi enunciado o comentário – Recurso provido. O direito de resposta não se confunde com o pedido de explicações, definido nos artigos. 144 do Código Penal e 25 da Lei 5250/67, pois este está vinculado diretamente à ação penal, embora possa ter como conseqüência a publicação nos moldes do direito de resposta. (Josemar Dias Cerqueira, 2007, http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4323)

Mesmo sem acompanhamento legal, Josemar Dias Cerqueira esclarece que, pela ética, a resposta deveria ter sido publicada em TODOS os meios que estavam envolvidos na situação. Porém, essa resposta só foi publicada em UM veículo e no diário virtual de uma colega de profissão. Nota-se que com o advento da comunicação, seja ela feita por profissionais do ramo ou não, a falta de uma reformulação da Constituição sobre a área é fatal.

Porém, seguindo o pensamento de Gaiarsa, quando a figura é exposta ela está exposta. E também a disposição da mídia e dos fãs – nesse caso. Lógico que a mentira nunca deve ser usada no jornalismo, como foi usada por esses veículos, mas a verdade é que a fofoca não apareceu hoje e não vai ser disseminada pela atitude de Lázaro.

Há a esperança de que o apelo do ator pela veracidade sirva de alerta para acabar com a propagação de notícias sem confirmação com a fonte certa e também para que o publico tome mais cuidado com as mídias que procuram e usam como base de informação.

Por thaislongaray Postado em Opinião

Obcecados

“Não é por sorte que a história está sempre se repetindo”.

Essa frase resume todas as respostas em uma quando o assunto questionado é violência, a guerra entre povos. Não é sorte, não é destino, são pessoas. Cada homem crê em alguma coisa, tem uma crença. Mas nenhum tem o direito de tirar a vida de outrem somente por não concordarem em alguns aspectos.

Parcial, o documentário “Obsessão – A Guerra do Islã Radical Contra o Ocidente” (Editora Beth Shalom) traz a visão ocidental de diversos fatos históricos. A frase marcante e que mais se repete ao longo do filme é justamente a que abre esse texto.

Enquanto grandes nomes discursam sobre as ameaças islâmicas, sobre o medo de novos ataques, trechos extraídos de canais de TV’s muçulmanas mostram o ódio das crianças, a incitação a uma guerra santa mundial (jihad global) e revelam o desejo de dominação presente na civilização.

Durante o vídeo, por diversas vezes, percebemos a tal frase. Ela á pronunciada apenas uma vez, mas as provas estão em todos os momentos. Paralelos entre o nazismo e os atuais radicais são traçados com opiniões de pessoas que presenciaram episódios marcantes da história e mostram que o fanatismo é um começo para violência.

Apesar da declarada posição, o que paga o documentário são as imagens. Um arquivo de peso reunido em 70 minutos com cenas fortes de terrorismo, sangue, dor e momentos contraditórios de extremistas. Carro de americanos pegando fogo e os corpos sendo arrastados pela população no Iraque, comemoração do 11 de setembro na Palestina, discurso de dominação islâmica e o desejo explícito de chegar a Casa Branca. Todos esses momentos são revelados de forma clara, longes da censura dada pelos padrões mundiais.

Vale a pena assistir, mas com a cabeça e o coração livres de qualquer influência, seja de que origem ela for!

Sorria, você está sendo filmado

De fato, a tecnologia tem um perfil contrário à privacidade. As invenções do homem deixam qualquer transeunte das grandes metrópoles a mercê de fotografias ou filmagens, sem ser previamente consultado. As câmeras estão aí, presentes em diversos lugares prontas para flagrarem o indivíduo.

A mudança de sociedade, nesse caso de industrial para informatizada, é difícil. Na troca em questão, também há renúncia à intimidade e à distância, tudo está no mesmo local, ao mesmo tempo. Facilidades trazidas pela Internet também podem violar a privacidade, a prova está nas empresas que revelaram como “monitoram” clientes. E que os bancos de dados coletados, muitas vezes, estão ao alcance de um clique.

A maioria dos sites do Brasil, por exemplo, até um tempo atrás, não possuía política de privacidade para os dados fornecidos pelos internautas. E alguns alegam, ainda, que as informações são prestadas a custo de benefícios que elas sabem que virão.

Nem só as empresas estão nessa missão, governos também optam por vigiar a comunidade, em busca de segurança e organização. Como novidade não pode ser classificada essa “vigilância”, aplicada tanto para os adversários e prisioneiros de antigamente, como para os governados de hoje em dia. O flagra e a identificação já estão disponíveis instantaneamente em diversas cidades do globo. Pessoas têm a face comparada com a de criminosos, instituições de ensino tem o nível de violência dos alunos avaliados a fim de evitar massacres.

De volta a Internet, há quem acredite que o sigilo de alguns dados seja uma questão de sobrevivência nesse admirável mundo novo. Mas e quando esse anonimato não é possível porque a pessoa tem de fornecer dados para comprar o software magnífico de um gigante da computação e leva para casa uma caixa preta com detalhes para fins desconhecidos? Detalhes que podem ser usados de forma negativa e que colocam em risco a segurança do comprador. Tais detalhes então, podem ser encaixados em um processo contra os fornecedores que não prestam as informações necessárias ao consumidor, ferindo os direitos constitucionais.

O sigilo também não é possível quando se trata do local de trabalho. E-mails enviados e sites acessados viram, no fim do dia, mais um relatório na mesa do chefe. Não bastasse, o funcionário ainda é filmado enquanto dá continuidade as tarefas. Todas essas “armas” servem, segundo os portadores delas, para zelar pelo correto uso dos recursos profissionais.

Há também os vigias residenciais. Amigos, familiares, companheiros usam programas que enviam cópias de tudo o que ocorre no computador monitorado para o interessado, com objetivos diversos, tanto positivos quanto negativos.

E por fim, como se tudo citado fosse pouco, surge o projeto Echelon e alguns outros semelhantes. Planos que interceptam as comunicações via satélite, cabo e ondas do planeta. E que depois avaliam todos os dados trocados para ver qual o índice de perigo que eles representam para a Segurança Nacional, no caso do Echelon, da América Nortista, da Austrália, do Canadá, da Inglaterra e da Nova Zelândia.

O problema é que a sociedade “segura, organizada e informatizada” começa a sentir uma certa preocupação em ser vigiada sem saber por quem e por quê e por saber que daqui alguns anos, poucos anos, todos poderão saber tudo sobre todos. E aí terá chegado a tão sonhada SOCIEDADE TRANSPARENTE de David Brin, que pode ser comparada ao tempo em que todos viviam em tribos e se comunicavam por gritos e rugidos, sem a mínima privacidade.

Então o que fazer? Arrumar a roupa, pentear o cabelo, caminhar elegantemente e sorrir, por que com certeza você está sendo filmado.

Por thaislongaray Postado em Opinião